15 juin 2005

Faíscas de Bliss

Minha vida tem sido intercalada por momentos de apatia e desespero, por faíscas de entusiasmo. Desses que nos fazem rir sozinhos, sem nenhuma explicação. Estou longe de sentir novamente aquelas sensações de boca seca, pernas trêmulas e coração aos pulos, típicas dos apaixonados. Mas já dou-me por satisfeito quando aquelas faíscas acendem. Ainda sou um idealista, querendo salvar pessoas dos monstros que eu invento. Só faltam os moinhos. Tem um gato, agora, que anda pela casa, acredito numas poucas pessoas e nos mirabolantes planos da Gisa. Leio dois livros da Katherine Mansfield ao mesmo tempo. Eu, que não conhecia seus contos, agora estou assim, meio bobo. Não, totalmente bobo.
"Bertha simplesmente correu para as longas janelas.
- Oh, o que é que vai acontecer agora? - exclamou.
Mas a pereira permanecia adorável, cheia de flores e tão imóvel como sempre."
Essas faíscas, eu entendo, eu entendo! São de felicidade.

03 juin 2005

Linha 476

Nenhuma citação para começar porque esse texto parece até objetivo. Escrito assim, correndo contra o tempo, com destino à aula de Latim à noite, pegar ônibus, entregar o v.t. para o cobrador, sentar à janela e abrir Desmundo na pág. 92, fugir dos olhares dos passageiros, alunos, a maioria, da PUCRS, ônibus aos solavancos, Cristiano Fisher-Protásio-Oswaldo por quase meia hora, descer no Mercado, pegar Metrô, assistir à correria pelos bancos, encontrar um canto perto da porta e, de pé, retornar ao Desmundo... Fugir dos olhares dos passageiros, das manchetes de sempre dos piores jornais, das conversas paralelas, tão entusiasmadas, e que parecem ser as mesmas que ouvi pela manhã. Falam sobre trabalho antes de chegar ao trabalho. E falam sobre trabalho depois do trabalho. Mais meia hora e chego à Universidade. Só então é que percebo que não fui nada objetivo. Eu queria - e devia- ter falado sobre... livros. Sobre os livros de poesia da Daniela, aqueles que ela organiza pacientemente na estante, e acho que comprou um, toda saltitante pela São Paulo... E eu sem estante para acomodar meus livros, pilhas deles à minha espera. Me esperam Sylvia, Dostoiévski, Clarice, Anaïs, Kafka em quadrinhos, biografias, revistas de literatura, entre coisas emprestadas, compradas, surrupiadas. De olho nos livros das vitrines, nas estantes da biblioteca... Cervantes, Cacaso, Clarice, Carpinejar, Hilda, Lewis Carroll. Comecei minhas listas, meus Top Five, Dani, mas espere que vou procurar os nomes dos discos... Era para falar de livros, mas falei em discos. Abaixo a objetividade!

02 juin 2005

Filme Mudo

"Meu silêncio te dirá o que meu coração em si fala..."

[ Ana Miranda, in "Desmundo"]

Você é o clássico amor impossível. Vendo suas fotos com coroazinha de princesa da Disneylândia. Femme fatale com olhar que derrete o acetato do meu filme mudo, uma tragédia muda com aqueles rostos de espanto e dor, as costas da mão na testa. Eu devia ter falado do show de Ute Lemper que vi no Teatro São Pedro, ao menos para dar um sentido histórico para os textos desse blog. Afinal, isso aqui não é um diário? Boa noite, dia, descreverei aqui o meu jantar. Pão com margarina e café solúvel com leite. O gato no colo quer puxar a toalha da mesa. Ao menos ele teve a quem puxar. Prezado diário, tenho conseguido ler os livros até o fim, estou progredindo. "Um Copo de Cólera" eu já li [para descobrir, só então, que o filme era realmente ruim]. Dois livros de Lingüística, "Salomé" do Wilde e só. Os olhos maiores que a barriga. Parece que nunca viu livro. Leio "Desmundo", mas não tem Simone Spoladore. E o show de Ute Lemper parecia um cabaré.