30 août 2005

nine million rainy days



Dias de chuva interminável e eu penso que não precisamos ver esses dias assim, tão cinzentos. De manhã, eu via a cidade passando pela janela do metrô, o céu escuro, mas as coisas brilhavam e as cores eram mais vivas, como se tivessem sido lavadas. Tudo lá fora parecia limpo, o que é uma grande mentira. Mas finjamos um pouco, afinal aqui é o meu mundo de ficção [o mais verdadeiro que eu conheço]. Cedo demais para sonhar, mas as mãos eram reais, o rosto real e os olhos e o sorriso que falam, brilhando, bem diante de mim. Nunca vi isso antes. Um silêncio que brilha, debaixo do guarda-chuva. O pianinho de Belle & Sebastian fazendo a trilha sonora que não sai da cabeça. Qual era mesmo o significado da expressão "chovendo cães e gatos"? Nota-se que fiquei desorientado.

17 août 2005

Spielberg e os brincos de argola

Deve haver uma explicação psicológica para que alguém se esconda por trás de certos artifícios. E olha que tem gente que abusa. Na minha frente no ônibus de manhã: uma loira falsa, de cabelos falsamente lisos, pele artificialmente bronzeada e fazendo aqueles malabarismos com o cabelo numa súplica desesperada por atenção. "Vocês precisam me ver, olhem como sou maravilhosa, que cabelos, que pele!". Olhei para a janela do ônibus, pensando: "Só falta um item, aquele mesmo, os abomináveis e indefectíveis brincos de argola". Me contive por um instante, me recriminando: " Não seja tão preconceituoso, ela não usa brincos de argola, não julgue as pessoas pela aparência". Então virei-me novamente para me certificar. E eles estavam ali, os brincos de argola, imensos, redundantes, ameaçadores, fulminando qualquer possibildade de perdão pelas atrocidades humanas. A ânsia de vômito da véspera, após a sessão de "Guerra dos Mundos", veio à tona. A previsibilidade sempre me surpreende.

09 août 2005

Leis da Física

Hoje mesmo eu pensava [ou era a idéia de um pensamento, aqueles lampejos...] - olhando pela janela do ônibus a cidade pegajosa de umidade e frio - que não escrevo aqui há um bom tempo. Mas não que eu não tenha escrito, porque já escrevi um bocado de cartas por esses dias. Está quase tudo nelas, aos fragmentos. Tenho cartas que não enviei, tem cartas em envelopes, tem cartas incompletas, cartas fora do baralho, cartas na manga. Confesso que estou mergulhado em completo silêncio. Meus pensamentos são folhas de papel em branco. Uma paralisia que, à primeira vista, até poderia se assemelhar a alguma espécie de transe ou contemplação. Mas não é nada disso. Essa paralisia silenciosa é universalmente conhecida como inércia.