04 janvier 2007

misery is a butterfly


"Elephant girl
It was an accident unfortunate
Angel threw me like a rubber man
Aiming for the ground
Why amuse yourself in such way
No don’t insist I’m already hurt..."

Blonde Redhead, Elephant Woman

Ele, mais amargo do que o habitual. Palavras tão ácidas que formavam buracos no chão, cada vez que as pronunciava. Do outro lado da cidade, ao telefone, ela procurava reanimá-lo com comentários engraçadinhos. A conversa começara tensa. Mas logo foi tomando outro rumo.
- Você, com esse ar misterioso, deve ter várias garotas chovendo na sua horta.
- Horta? Não. Um cemiteriozinho.
- Cemiteriozinho?
- Um cemitério de elefantes.
- Então não pode ser um cemiteriozinho, precisa ser bem grande.
- É um cemiteriozinho de elefantinhos, de fetinhos de elefante.
- Pobrezinhos. E por que morreram?
- Talvez porque não souberam cuidar muito bem deles. Ou eu mesmo não soube cuidar, o que é mais provável.
- E por que, então, não escolhe um outro animal? Hmm... borboletas! Que tal? Apesar de efêmeras, inspiram liberdade. Borboletas colorindo o céu. Não é mais bonito?
- Eu preferia formigas, daquelas que dizimam tudo pelo caminho. Formigas-correição, conhece?
- Borboletas acho mais bonitas. Imagine criar várias delas? Ter um borboletário!
- Ou um cemitério de borboletas.

03 janvier 2007

o que só os gatos percebem










"You'll rise above the sea of doubts
Into a world full of clouds
Alive..."

Azure Ray, Sea of Doubts


Três dias e três noites que não sai de casa. Sentia um gosto amargo na alma. Sabia bem o porquê. Intuição de alma não falha. Ouve cada palavra, sentindo o coração cortar-se em fatias. Não bastava que lhe podassem as asas? Um final no início de um novo ano. Irreparável? Irreversível? Levanta-se da cadeira encharcada de suor, dirige-se até o banheiro, evitando os olhos da gata. Chora escondendo o rosto na toalha, chora o gosto amargo da alma. Brinca um pouco com a gata, antes de se despedir, inventando um sorriso que não tem. Gatos percebem tudo. Embarca no ônibus, vai para o trabalho engolindo a dor. À tardinha, compras no supermercado. Leite em garrafinhas na promoção. Nescau, pão, café e cigarros. Na parada do ônibus, percebe um céu diferente dos demais. Finge ignorar. Mas logo volta-se para trás, para esse céu cinza, laranja e azul que lhe diz: "sua vida vai desmoronar, vai se reerguer, vai cair de novo, mas é a única que temos para lhe oferecer. Não adianta querer abraçar aquilo que não tem. Olhe para a frente, olhe ao redor de si mesma. Nada é assim tão trágico." Céus ao entardecer dizem coisas estranhas. Embarca no ônibus, entra no apartamento. A gata adormecendo sobre o piano é despertada pelo barulho das sacolas. Abre uma das garrafinhas, oferece-lhe um pouco de leite. Diante do computador, percebe que Azure Ray nem é tão triste assim. E que a vida nem é assim tão trágica. Gatos percebem tudo.

01 janvier 2007

guaraná, cigarros & julie doiron



Tonight is no night for romance
The bus will be leaving soon
And I see clouds in your eyes
But this bus will be leaving soon
And you've got it all
But I am leaving now
And I don't when I'll be coming back...

Julie Doiron, Tonight is No Night

Toma o café da manhã. Bebe um copo de guaraná. Fuma mais um cigarro. Olha pela janela com o olhar vazio. Nada vê de diferente. Apenas os dias tornaram-se insuportavalmente quentes. A cama desarrumada, os livros espalhados. Ontem, vestiu-se para uma festa, mas olhou-se no espelho e viu uma cara de morta. Desistiu. Agora ouve músicas sem parar. Julie Doiron, Azure Ray, Sigur Rós, Ida, The Sundays, Laura Veirs. Talvez, à tarde, leia algumas histórias em quadrinhos. Os cigarros já estão no fim. A gata dorme n'algum canto da casa. Fome? Nenhuma. O vazio que sente é mais do que o suficiente para preenchê-la. Um silêncio estranho paira sobre a cidade. Nada sai do lugar. Nada se move. Estamos em 2007.