30 novembre 2006

carta-bilhete de alforria para minh'alma


Sarah Polley em "Minha Vida Sem Mim"

O navio desatraca
imagino um grande desastre sobre a terra
as lições levantam vôo,
agudas
pânicos felinos debruçados na amurada

e na deck-chair
ainda te escuto folhear os últimos poemas
com metade de um sorriso


Ana C.


Minh'alma quer deixar meu corpo. Sinto que ela quer me deixar. Mas não quer ir de mãos abanando. Sinto meu coração sendo arrastado. Ela quer levá-lo junto. Vou deixar que o leve. Vou deixar que ela me deixe.

29 novembre 2006

do próprio veneno

Ilustração de Adrian Tomine


Loucura é razão sublime
Para um olho perspicaz.
Muito juízo é pura
E simplesmente loucura.
A opinião da maioria
Nisto e em tudo prevalece.
Se concordas, és sensato.
Discordando - és perigoso
E acorrentado no ato.


Emily Dickinson


Ela adorava ler tragédias:
Shakespeare, Goethe, Sófocles.
Até que sua vida tornou-se uma delas.
E ela não gostou nada disso.

a impraticável leveza de ser

Scarlett Johansson in "Last in Translation", de Sophia Coppola


Free to live, last time
And you, you’re always
You’re wonderful, I wanted you
I do, I do, I do

Free to go, and go
And you
City girl, you’re beautiful
I love you, I do, I do, I do

I feel love, I know
And you
City girl, you’re beautiful
I love you, I do, I do, I do

Free to go, I know
And you, you
City girl, you’re beautiful
I love you, I do, I do, I do...


"City Girl", Kevin Shields


Hoje acordou lenta, mais cedo que o habitual. Havia decidido que o dia deveria ser leve, diferente. Sem celular, sem internet. A janela do ônibus e o CD player já seriam o suficiente. "Lost in Translation" nos fones de ouvido, o vento no rosto e o barulho dos carros ao fundo. As pessoas entrando e saindo do ônibus pareciam surpresas pelo seu total desinteresse em analisá-las. Pouco importa. A menina à sua frente a decepciona, tamanha a preocupação em arrumar os cabelos a cada 10 segundos, checar as unhas a cada 30 segundos, olhar para os lados a todo minuto. Ela sorri profundamente por dentro. Sentindo-se meio Scarlett Johansson sem Bill Murray, mergulhada na voz suave de Kevin Shields. "City Girl" funciona como um antídoto. Fecha os olhos imaginando caminhar pela Rua da Praia, sem pressa, pelas calçadas úmidas, numa tarde qualquer. Apreciar os cartazes nas vitrines do cinema, comprar um ingresso depois do café, ser a única presente na sessão. Chorar, do início ao fim, vendo "Cem Escovadas..." pela segunda vez. E a tão almejada leveza cair toda pelo chão.