Encher estes espaços com os dias
No meu quarto, você pode ir ou ficar
Eu não consigo dormir, eu não consigo falar pra você
Agora estes anos travados em minha gaveta
Eu abrirei para ver, somente para ter certeza
Eu não consigo dormir, eu não consigo falar pra você
E assim eu estou quase alcançando unicamente
E então eu aprendi o significado do sol
E tudo isso é como uma mensagem que vem deslocar meu ponto de vista
Eu estou observando através da minha própria luz
Como ela colore a sua máscara
Segure meu vinho, segure ele aí
Ninguém está perdido, mas ninguém ganha...
Azure Ray, "Sleep"
We'll drink our tears and thirst for more
It's our lot in life
They are elephants we are mice
So keep this a secret
Keep this a secret
We are mice...
Azure Ray, "We Are Mice"
Pegue as músicas mais tristes que puder encontrar nos discos da Cat Power, junte com as melodias e vocais mais desoladores da Hope Sandoval e do Gentle Waves e você terá uma banda chamada Azure Ray. Na verdade, uma dupla - Maria Taylor e Orenda Fink são de Athens, Georgia [EUA] -, lançaram seu 1º disco - Azure Ray - em 2001 sem que muita gente percebesse. Em seguida, vieram Sleep EP [2002], Burn and Shiver [2002] - meu favorito -, November EP [2002], Hold On Love [2003], The Drinks We Drank Last Night [2003] e New Resolution [2004]. Para apreciadores do Moby [o que não é o meu caso], os vocais das meninas estão em "Great Escape" do CD 18. Elas também o acompanharam em algumas turnês.
Não espere uma só canção alegre por parte delas. É música para ser ouvida longe de qualquer objeto capaz de ameaçar sua vida. Se for ouvi-las diante da janela, tenha cuidado. Também não recomendo ouvi-las dentro do carro. De preferência, pare no acostamento. E o coração, muito cuidado com ele.
Quando alguém vier lhe dizer que Belle & Sebastian é triste demais, lembre-se de Azure Ray.
"Esta é a luz da razão, fria e planetária.
As árvores da razão são negras. A luz é azul."
Sylvia Plath
Sim, é preciso que a chame de Sra. Plath. Sylvia, certamente, haveria de provocar mal entendidos. A senhora deve muito bem saber o que é ter uma asa cortada, Sra. Plath. Não apenas uma ou duas vezes. Mas uma infinidade delas. A senhora já presenciou esta cena antes: vão até à cozinha, pegam uma faca - dessas usadas para desossar galinhas - na gaveta e, segurando firme sua asa, cortam-na de cima a baixo, sem hesitar. Ela sangra, as penas tingem-se de vermelho. Não é de se espantar, contudo, que ela volte a brotar, como braços de estrelas marinhas. Ela resiste. Teimosamente resiste. Como o amor que tanto defendemos, o amor pelo qual lutamos tão quixotescamente. Lembro de Joana D'Arc nessas horas, a única santa na qual insisto em acreditar. Ela não media esforços e foi perseverante até o fim, fiel àquilo em que acreditava, embora, para muitos, não houvesse passado de um delírio, de um fanatismo. Palavras secas e o destino é certo, Sra. Plath. São de uma precisão impressionante.
A primavera está no ar
Eles estão varrendo as ruas
O vento é uma brisa
O sol se transforma nele, ele concorda
O que mantém o rosto dele levantado?
Nada além dos céus azuis,
Corredores que levam às janelas
Que não se fecham
Onde você mora?
Amor é um lugar
De onde você é?
Ela diz, pergunte a você mesmo, pergunte a qualquer um
O que mantém o rosto dele levantado?
Nada além dos céus azuis,
Corredores que os olhos da mente
Contemplam...
Metric, "Love is a Place"
Procura ocupar-se das pequenas coisas como lavar louça e roupas, limpar a casa, brincar com a gata que lhe pede atenção. Gatos percebem quando sorrisos não são verdadeiros? Vê uma pilha de roupas sobre a tábua de passar, pilhas de livros interrompidos, anotações pela metade como montanhas intransponíveis. O peso do ar sem vento de uma tarde de Natal é diretamente proporcional ao peso do próprio coração, ao peso de um sonho que ela se esforça por erguê-lo sozinha. Sente o coração envenenar-se, tingir-se de cinza. Um dilaceramento por dentro como algo prestes a implodir. Cada palavra vaga é um empurrãozinho para que o castelo de cartas - que ela não recebe - desabe. Coleciona músicas obscuras e melancólicas no computador como brinquedinhos que finge acreditar pertencerem a ela apenas. Como se fosse a única, no mundo inteiro, a escutar The Decemberists, Architecture in Helsinki, Blonde Redhead, Metric. Ela sabe que não é verdade. Mas deixa-se iludir. Deixa que os outros a iludam. E ainda finge que acredita.