01 mai 2009

Para Frida Kahlo

Arte de Frida Kahlo

A vida é uma melancia cortada:
doce
vermelha
e violentada.

08 janvier 2008

O Coração do Dr. Spock


Ainda hoje, lembra das histórias que sua mãe contava. E as imagina assim, em álbuns de fotos antigas dos anos 70. Mães quase sempre inventam histórias que, muito tempo depois, você termina por desmascará-las. Mitos como o do rabo de lagartixa que pode grudar na sua pele. Ou de que o louva-deus é um animal venenoso. Ou de que o pó das asas da mariposa pode torná-lo cego. Talvez a maioria de nossas mães acredite "de pés juntos" (uma expressão típica de mães) que tais ameaças realmente existam. E nós, crianças, vivenciamos um universo cercado de pavor e mistérios. Preparar o ninho para o coelho da páscoa (podia jurar que ouvia rumores de algum coelho que se aproximava) ou dormir antes que o Papai Noel chegasse, faziam parte desse universo.

Lembra que ficava intrigada com uma citação de "O Pequeno Príncipe", no boletim do colégio, em que falava de baobás. Conviveu com essa palavra durante um certo tempo para, enfim, descobrir que baobás, de fato, existiam. Nunca pudera ver um baobá de perto. E muito desolada ficou ao saber, debruçada sobre a Enciclopédia Barsa, que essas árvores monstruosas só existiam na África (perdoem-me aqui, biólogos de plantão, por alguma inverdade. Estou apenas retratando um universo alheio a qualquer rigor científico).

Houve uma vez em que jurou ter visto, à noite, um espírito em seu quarto. Descreveu tudo, roupas que vestia, cor dos cabelos. A mãe, com aquela tranqüilidade que somente as mães sabem ter diante de tais relatos, esclarece o mistério: "Foi uma tia sua que morreu, bem velhinha". E assim ela vivera sua infância: entre verdades inventadas, mentiras desmentidas, revoadas de andorinhas e castelos desmoronados.

Mas, de todas essas histórias, uma, em especial, ela sempre fez questão de preservar. A de que o Dr. Spock de Jornada nas Estrelas tinha um coração mecânico e que, portanto, jamais se apaixonara. Desde então, ela sonhava em ter um coração assim. Jamais se apaixonaria. Pouco lhe importava que tivesse orelhas pontudas, desde que não se apaixonasse. Mas ela nunca teve um coração assim (muito menos orelhas assim). Se apaixonou muitas vezes, sofreu em silêncio, desejou morrer, desistir de tudo. Mesmo depois de adulta, decidiu manter o mistério acerca do coração do Dr. Spock. Se era verdade ou não, que o mistério permanecesse naquele velho álbum de fotos. Hoje, ela prefere acreditar nas palavras que a mãe dissera, diante do desejo da filha, naquela época: "Viver sem se apaixonar? Sua vida não teria o menor sentido".

28 décembre 2007

St. Remy e uma Piscina de Gelo


















Ilustração de Audrey Kawasaki

"We've lived in bars
And danced on tables
Hotel trains and ships that sail
We swim with sharks
And fly with aeroplanes out of here..."

"Lived in Bars", Cat Power


Faz dias que mal me alimento, doutor. Um café, um pedaço de pão. Ou nem isso. E muitos maços de cigarro. Sinto uma alma suja aqui dentro. O senhor acha que pode ser os pulmões? Ah, e esse suor que não desgruda da minha pele. Ontem fiquei horas sob o chuveiro, deitada sobre o piso, vendo a água correr ralo abaixo. Me lembrei de sangue escorrendo. De areia esvaindo por entre os dedos. Do exato momento em que o herói resgata a mocinha ainda com vida, com uma carta ensangüentada nas mãos. Tem uma cortina com desenhos de gatos no meu banheiro, repleta de furos feitos adivinhe por quem? Por um gato, doutor. O senhor entende de gatografia? Oh, como eu desejaria agora estar mergulhada numa piscina de gelo. Até hibernar. Deixar de sentir toda espécie de dor, dessas dores que os exames médicos não enxergam. Precisava era de um remédio para se tomar de colheradas. Colheradas generosas de morte absoluta. Sabor doce e inebriante como Saint Remy, escorrendo pelos cantos da boca. Algo que me embriagasse. Preciso me embriagar novamente, doutor. Preciso que alguém acenda velas e dance para mim. Alguém que erga velas e afunde navios. Preciso que alguém me embriague.

Entendo, entendo. Já tomei demais do seu tempo. Deve haver mais pacientes lá fora, precisando ser resgatados. Mas agradeço seu desinteresse, doutor. A julgar pelo seu triste diagnóstico, diria que o senhor não chegou nem perto do meu... canteiro de taquicardias. Foi Ana C. quem escreveu. O senhor a conhece? É que tenho me sentido assim... tão... Ana C. ultimamente. Tão Wherter. O senhor acredita em reencarnação?